quarta-feira, 6 de maio de 2015

CINCO REAIS


Sim! Cinco reais observei tremular na mão do diminuto menino sorridente. Porém, antes de retratar todo o contexto fico frenético em pensamento tentando buscar todas as possibilidades que, a dita nota pode adquirir nos tempos atuais. Acredito que são ínfimas em demasia. Por outro lado, seja qual for à intenção em adquirir mercadoria com essa quantidade o ato será danoso conforme o caminho empregado. Por quê? Oras, por todo canto, seja aqui na terra de pouco pinhão, ou, nos demais locais desse país desigual, compra-se riambas a céu aberto de noite e de dia. Bom, nem me atrevo muito em se aprofundar neste assunto, pois dessa desgraça passo longe e o entendimento que tenho sobre o tema acumula apenas na mente os inúmeros óbitos presenciados no dia a dia de serviço.Soma-se também a marca dolorosa, mas muito mais doída nas famílias enlutadas. Enfim, volto a arriscar satisfazer a ideia de que posso conseguir alguma coisa com os míseros cinco reais e lembro-me dos tempos que usava o transporte coletivo para alguns deslocamentos. Todavia, a era presente informa que o meu quinhão apenas contempla a possibilidade de embarque na condução lotada, pois o retorno será a pé ao lar. Por outro lado, o estômago ronca peculiarmente informando a necessidade de comer. Ai a condição da mísera porção de bufunfa irá calejar mais ainda meu estômago dilatado! Porque apenas um salgado amanhecido do boteco desprovido de higiene não será o suficiente.  É, realmente está difícil por demais alcançar sobrevida com essa infeliz quantia. Então, após dura briga com as palavras na tentativa de enganar o pensamento, o jeito é deixar o sentimento extravasar e nesse instante a imagem do guri com sua nota de cinco reais não sai da minha cabeça. Exato! Não sai da cabeça, pois no coração já está cravada e nunca imaginei presenciar aquilo depois de uma noite de correria. O palco da cena era a farmácia do bairro e como há várias não irei fazer propaganda gratuita, a não ser que isso contribua em aumentar as notas de cinco reais ao meu pequeno menino sorridente.

Certo, chega de enrolação, vou direto ao assunto amigo leitor, mas alerto: seria excelente se fosse ficção, seria melhor ainda se fosse sonho, pesadelo, devaneio onírico desse escrevinhador, no entanto, não é... e o colírio que devo usar até o fim dos meus dias preciso de duas notas de cinco reais e mais alguns trocados para conseguir e foi por esse motivo a ida até a maldita farmácia. Porra, Zé! Por que maldita farmácia? Sim, ela é o meu mal necessário e de inúmeros quando o assunto é drogar o corpo na busca de cura para as enfermidades e por ser local de freguesia em abundância, só falta encontrar resistência de chuveiro por lá. No entanto, o que encontrei foi o menino. Na verdade ele me abordou na porta de entrada e pediu algumas moedas e como relâmpago lembrei no ato de uma crônica de minha autoria escrita há tempos intitulada “O Menino do Sinaleiro”. Para abreviar certo trecho dessa marca, também eterna em meu coração, apenas sei que os atores são distintos, mas o drama dentro do lar é idêntico, ou seja, angariar moedas para garantir o sustento de cada dia. Assim, devido a minha pressa e por ser cliente assíduo do dinheiro plástico nenhuma moeda pude ofertar ao guri. Então, entrei, conversei com a atendente e após carregar o medicamento até o caixa me deparei com o menino dentro da farmácia. Os clientes ali presentes e as moças dos caixas tinham a exata certeza que o maltrapilho pequenino iria roubar algo. Isso era claro na visão de todos, mas na minha, não. O que travou o meu pensamento para seguir ímpar? O que fez a minha mente viajar e locupletar os olhos com encanto enquanto via o menino correr pra lá e pra cá com a nota de cinco reais feito bandeira da pátria em desfile? Estava deflagrada a desordem. Minha mente guerreando com meu coração elevavam os batimentos cardíacos e ao menino restava à felicidade de sonhar que, poderia comprar todos os doces possíveis com aquela nota, e num repente segurei a mão do menino e pedi que escolhe-se o doce que quisesse. Espantado ele me olhou, guardou a nota e pegou um pacote de balas. Nem sei qual doce era, ou melhor, sei pois tenho o ticket guardado e pedi para a moça do caixa registrar a mercadoria e liberei o menino. Achei estar fazendo o correto ante a situação, mas o infeliz engano veio de imediato ao sair do estabelecimento e presenciar a mãe do meu protagonista, beliscá-lo e a solavancos sacudi-lo em busca de respostas. Você está com a nota na mão! Você pegou escondido o pacote de balas? Nesse instante intervi de imediato dizendo que comprei o doce e não fizesse aquilo. A mulher se aproximou. Seu olhar cansado penetrava intensamente no meu íntimo. Não havia refúgios secretos para os meus subsolos mentais, que a dita mulher não pudesse alcançar naquele momento e em tom veemente falou: Obrigado, senhor... mas, preciso lhe falar. O pai do meu filho nos abandonou e sei que passo por inúmeras dificuldades atualmente. Contudo, uma coisa é certa: educo meu filho para nunca pegar nada de ninguém, mesmo diante da maior necessidade. Hoje, o senhor pode notar nosso carrinho de mão cheio de papelão, porém, amanhã pode ser o contrário. 

Todavia, a única nota que consegui hoje é esse cincão que o senhor observa e dei para ele comprar um doce nessa farmácia. Muito obrigado e Deus abençoe o senhor. Muitos outros dizeres saíam da boca daquela mulher sofrida e cada vez mais seus olhos falavam com minha alma. Por fim, disse que não havia necessidade de agradecer e retornei ao lar, mas a proporção da agitação estabelecida em minha mente aumentava fartamente e, ao me deparar com o ticket da farmácia notei o valor do doce. Perante a exatidão do registro faltaria cinquenta centavos para o meu pequenino sorridente e certamente o sorriso iria desaparecer de sua singela face após sair sem a guloseima desejada. Talvez, alguém auxiliasse com uma moeda a mais da maneira que o menino me pedira antes. Será? Minha mente inquietante atomizava cada vez mais os questionamentos encurralando minha razão. Então, abri a porta. Observei a noite da maneira que sempre gosto de fazer e notava a lua em sua fase de cheia taça e um suspiro vindo da imensidão confortou meu coração, sussurrando em meu ouvido: sei por que temes os conflitos presentes e os vindouros, todavia, lembre sempre dos gestos que mudam o mundo quando há boa vontade. Agora descanse, sua luta se inicia, agora. Confortado abaixei a cabeça. Sabia que outro ser carecia da minha presença. Entrei no lar novamente. A bonança me fez dissertar vastamente para quem me esperava repleto de angústias e dúvidas, sentado no sofá. Aquela noite foi eterna. Rancor e ódio eram desenterrados e enterrados de tal forma que me surpreendiam. E, no fim da última fala, um dos seres mais preciosos na minha existência, dizia: Preciso conquistar sua confiança novamente, pai. Sei que preciso provar isso. As lágrimas ultrapassavam os limites da face. Era choro de felicidade! Felicidade dessas que cinco reais, cinco mil ou cinco milhões não podem comprar, pois o alento da alma e espírito não se compra, ou, vende dessa maneira. Apertei sua mão. Abracei-o mais forte ainda! E, disse intensamente como a mulher sofrida havia dito a minha pessoa: você nunca perdeu a minha confiança, filho. Descanse. Nossa luta começa, agora. Terminado o ato inúmeras respostas havia encontrado para as questões lacradas nas caixas guardadas em minha mente, mas isso é uma outra história (risos)...


 Bem-vindo seja todo o momento presente quando a razão abre espaço ao sentimento. Dali por diante nossa caminhada sofrerá mutações desejadas, ou não! Mas, o importante é tirar de dentro o que incomoda e aliviar, o pensamento. 

JRA ( o poeta da verdade).

2 comentários:

  1. Grande Giba... O Poeta da Verdade! O homem Ímpar e de coração latente!
    Que bom estar aqui novamente e me deparar com esse presente que me acrescenta e me faz sentir orgulhosa de poder participar de teu círculos de amigos!

    Minha mente volta a uma imagem: O lobo uivante diante de um belo luar! Tua foto de perfil do antigo MSN... Quanto tempo! Mas nem mesmo ele - O Tempo - é capaz de abalar teu modo ímpar de agir e ser! E mais uma vez o vejo como aquele lobo da imagem que tão bem o identifica... compartilhando com a lua o brilho de tua mente que aos poucos vai buscando as letrinhas e transformando-as em palavras que bailam... cintilam... e nesse conjunto resulta em tão belo conto!
    Sim... Belo! Pois nele não identifico as lágrimas... as dificuldades materiais... De forma alguma!
    O que você me remete é o quão grandioso é a riqueza humana!
    Nesse conto do garoto da farmácia, mesmo perante as dificuldades e percalços que a mãe junto ao filho vive, a mesma não deixa de passar ao filho o verdadeiro e mais rico valor: a Honra! Assim como o garoto, que neste mundo de tantas riquezas materiais, ele ainda carrega o que poucas crianças hoje tem: Infância! Onde um doce é um deleite e não aparelhos eletrônicos.
    Não bastasse, temos o narrador que mesmo diante de tantas durezas que presencia, seu coração jamais acostumou-se com essa rotina! Não fica de platéia... é atuante. E age desnudo de qualquer maldade... possuidor de gestos de boa vontade capazes de mudarem positivamente o rumo da história da vida daqueles que seu ♥ aproxima.
    Não poderia findar o comentário do conto sem citar que nenhum bom ato fica sem resposta. Quer mais gratificante que a troca de tão acolhedor e cúmplice abraço do teu Roberto?
    Você é ímpar Giba... sempre um excelente ouvinte e exímio possuidor de sabedoria a acalentar os que te procuram. Aquele amigo - companheiro - pai, que guarda sua dor numa caixinha para ir curar o de outrem...
    E mesmo diante de tantos caminhos tortuosos e dolorosos sei que colhes as mais belas flores, e com certeza, lá na frente, terás um belo jardim!
    Afetuosos Abraços!

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