quarta-feira, 1 de abril de 2015

BATALHANDO

Bom, aqui eu sei que sai na íntegra tudo que escrevo pois o blog é meu rs... Eita, saudade !Ah, o texto abaixo são alguns fragmentos sobre o tempo de serviço em ambiente hospitalar e algo é certo: o ambiente é duro por demais, todavia, as amizades ficam registradas eternamente em nossos corações. Segue lá:

"Curitiba, catorze de novembro de mil novecentos e noventa e sete. Mais precisamente uma manhã de sol no ambiente da dor (pronto-socorro) começavam meus primeiros passos nesta instituição de saúde. Lembro-me de um dizer meu sobre ser provisório e assim segue o transitório que, dia após dia somam-se noites e mais noites de trabalho. Nas minhas contas havia ultrapassado a marca de mil noites longe do lar e do descanso necessário para a mente e o corpo! Observando os mais diversos dramas na busca da solução imediata. Pelo menos é isso que se espera de um pronto-socorro: “atendimento imediato”. Igualmente, os dias de comemoração de fim de ano, mais de sete natais de serviço e na mesma dose a mudança do ano velho para o novo passei longe dos familiares. Talvez seja bizarro, pelo menos para mim, dizer ano velho para o ano novo, pois são algumas horas que limitam o encontro de ambos, mas na verdade são horas terríveis de muita dor e angustia em ambiente hospitalar. Enquanto muitos festejam, outros tantos lamentam a perda de um ente querido pela violência urbana, ou até mesmo, pela solidão que martela sua mente a pedir um desfecho para a maravilha que é viver. Contudo, este ambiente é o que mais testa o indivíduo diante da sua índole e crenças. Morre mais do que vive e perdi a conta dos inúmeros procedimentos de emergência que presenciei e os óbitos com requinte de violência e crueldade que, um a um hoje na minha mente são centenas. Foram toracotomias (abertura da cavidade torácica), drenos, entubamentos (tubo na traqueia para facilitar a respiração), massagens cardíacas etc. Enfim, métodos aplicados onde o corpo inerte é simplesmente, nada. Lembro perfeitamente o meu primeiro dia de plantão como recepcionista porque quase desmaiei depois de presenciar uma fratura exposta de perna, aonde o motoqueiro iria se submeter a uma amputação, devido à gravidade do acidente. A moça que me treinava na confecção das fichas de atendimento dos pacientes, dizia: - Se quer o emprego vai se acostumando! E desde então fui me habituando. Nunca me passou pela mente que aquilo era o mínimo a ser visto diante das inúmeras mutilações que se somaram noite após noite. Algumas marcam até hoje na lembrança e superar isto nunca foi tarefa fácil. Outro obstáculo a superar era o dia, pois aos poucos troquei quase que literalmente o dia pela noite, porque no princípio foram apenas dois dias de treinamento diurno e então fui remanejado para o turno da noite para suprir a carência de pessoal. Consegui de certa forma superar um pouco este desequilíbrio e o dia claro e imponente de sol, não me incomoda tanto. Todavia, colocava e coloco Deus como minha estrela guia e minha família meu chão firme, e, muitas maneiras busco para fugir dessa energia ruim e separar isto do dia a dia longe do trabalho. Uma delas é a escrita. Sou escrevinhador nas horas vagas e através de meus escritos participei de três Bienais do livro como coautor. Porém, a maioria acha que cessar isto é fácil mudando de ambiente. Todos os dias bato de frente com esta questão e no fim se torna mais um dia de trabalho. Sei que o crescimento foi sofrido e continua sendo, mas depois de alguns anos entendi que se tornou uma maneira interessante de analisar a trajetória dos inúmeros colegas que se perderam pelo caminho. Digo isto porque o caminho se divide da seguinte maneira: ou você se torna um individuo fechado, individualista e frio, ou, você se torna um individuo compassivo, hospitaleiro e receptivo. Não há outros caminhos além destes! É um ambiente de guerra! É uma batalha insana de uma conquista de terras inexistentes e riquezas surrealistas! Pra fechar este trecho comento apenas uma marca, ou melhor, duas entre viver e morrer: 1ª marca: quase cinco horas da madrugada gelada de um dia de junho, que não me recordo o ano e uma viatura da PMPR (Policia Militar do Paraná) chegou a todo o vapor e após a frenagem adentrou com um nato vivo que encontraram numa lixeira. Foi algo alucinante e pela primeira vez senti vida surgir no contato de todos com o que presenciava no ambiente da dor. A genitora era uma incógnita, mas o ato heroico dos policiais me emocionou. 2 ª marca: 23h11min de uma noite de verão e mesmo no atropelo dos ponteiros do relógio adiantado pela praga do horário de verão (horário de verão em pronto-socorro é caos) mais uma noite se somava e apenas tenho o registro do fato sem lembrar novamente do ano da cena terrível que iria presenciar. Desta vez não foi a PMPR que trouxe a suicida compulsiva que tinha vários registros de atendimento no ambiente da dor. No relato dos familiares era a quinta ou sexta vez que tentava contra a própria vida e pra piorar era gestante de quatro meses. Encontraram-na desmaiada há horas e juntamente com os diversos medicamentos que ingerira, tinha veneno de rato e bebida alcoólica. Não havia mais o que fazer e cada um que estava presente naquela noite viram uma vida lutar contra a morte sem chances, pois era o feto que se agitava e mexia-se numa luta alucinante para sair. As lágrimas se multiplicavam e cada um sentiu se inútil e com as mãos amarradas a apenas presenciar a morte chegar mais uma vez. 

Então, depois de alguns anos como recepcionista abriu uma vaga em outro setor e achei que deveria mudar de ambiente. Passei na seleção interna e  o novo desafio era mais intenso. Fui auxiliar de escritório do Serviço de Necropsia Clínica e Morgue. Por lá fiquei até remanejarem todos os funcionários e repassar ao Serviço Social a responsabilidade pelo atendimento. Nesse momento ocorreria nova mudança de horário e setor. As inúmeras noites de serviço chegavam ao fim e adaptar-se ao horário diurno fez refletir sobre um pensamento meu: “Basta à ação de outrem sobre nós, efetuando mudanças indesejáveis, para que as transformações ocorram de forma fulminante e implacável. Tudo isso veio de encontro com as reformas na minha atual casa e, algo tocou profundamente o meu ser quando a fala do pedreiro findou a obra, pronunciando:“ cada obra que eu inicio, ou, vejo surgir, tenho em mente que se começa errado, termina errado”. Pouca atenção eu dera naquele momento, uma vez que se tratava de um bêbado infame e a muito custo via minha casa surgir perante os entraves. Todavia, a obra errada fora iniciada e não havia como, parar. De lá pra cá as transformações seguiram e hoje percebi a potência da fala do infeliz pedreiro recomeçar novo processo de mudanças perante uma única ação. Qual seria? Bom, por longos quinze anos a labuta do meu ser seguia a dura rotina da noite e mesmo infiltrado em ambiente malogrado, sempre consegui resgatar resiliência e paciência para superar esta condição. No entanto, aquelas inúmeras noites trabalhadas foram reduzidas a pó após receber a notícia da extinção do setor em que eu trabalhava e optar por continuar ou não na instituição tendo que trabalhar no período diurno. Aquela ação trouxe sensação terrível. Seria possível seguir adiante sabendo que a noite traz o silêncio e o pensamento? Optei por continuar. Sim! Preferi continuar e assim a ação se transformou em mutações indesejáveis. Percebia o quão é grandioso o esforço para superar e tentar de todas as formas equilibrar as energias interiores, porque semelhança alguma encontrara perante o novo ambiente para poder ou ao menos conseguir sentir a atração do semelhante, da mesma maneira que eu conseguia no decorrer das longas horas noturnas de serviço. No entanto, a movimentação afetava o lar. Os demais entes percebiam e sugavam a nova sina, conforme o passar das horas arrebentava a morosidade de um dia inteiro agora bem distante do lar. Período delicado, mas viver é sofrer e a velocidade da modernidade não espera e dá refresco ao pensar para que o bom senso predomine. Ações, tomei. Transformações, criei... Bastou uma ação errada e o carro sem freio que se chama impulso opera velozmente. Todavia, hoje em dia continuo infiltrado e trabalhando com o público adverso e tudo que escuto como Ouvidor segue comigo sem partilhar a outrem. Bom, é isso de momento e obrigado pelo convite e sintam-se a vontade para visitar meu blog". Segue o link:

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