quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

SEM, PENTUA

O silêncio da noite é extraordinário. Quando ocorre a oportunidade de contemplar esse momento, todas as vozes interiores são ativadas. Isso ocorreu ontem. A cada quilômetro superado e conectado na magrela, o ambiente evidenciava mais e mais o seu domínio. E minha mente, maquinando. Na verdade, não arquitetava ou bolava nada. Apenas meus olhos observavam e compenetrados admiravam o céu e seu breu predominante, mais a lua no término da fase crescente. Jamais deixo de mencionar a lua. Observo-a com entusiasmo e respeito e as estrelas que sumiam e apareciam, igualavam-se aos olhos protetores daqueles que te querem bem. Dessa maneira segui o longo trecho até a residência. Nos dias atuais, torno-me felizardo em demasia, pois a violência impetrada em cada esquina, não possibilita um percurso desses, em sua plenitude, sem que ocorra ação de outrem. Até mesmo o trânsito profuso do dia a dia, dá certa trégua. Todavia, o perigo aumenta. Notei veículos seguindo na contramão. Sinaleiros, ou se preferirem, semáforos, serem superados sem prudência e seriedade, perante a cor vermelha. Os atores dessa época são escassos, mas a imagem noturna da urbe é singular. Torno-me nômade por completo e feito lobo andarilho, sei que a caça é escassa e o bel-prazer da toca, a meta. Camuflado pelo preto dominante da vestimenta, eu era o estrangeiro dessa terra. Mas, o sopro da mente reativou lembranças. 

Então, o tormento dessa divisão, formou dois indivíduos, diante dos inúmeros possíveis. O novo reinante controverso desse instante imagético aplicava inexoravelmente sua vontade. Lembranças demudaram o ambiente. Abraços, agradecimentos e faces alegres, surgiam em abundância. Por quê? A outra parte tentou replicar e pouca chance obteve, pois o novo momento não lhe pertencia. E, a energia estabelecida esmagou-o. O sociável se fazia presente. Sentir, tocar e admirar, era o conjunto das ações adquiridas. O silêncio da noite desapareceu. Não há silêncio quando há semelhante. O contexto retornou no tempo. Tempo esse de celebrar e mesmo diante dos entraves persistentes, o que realmente importava era a presença de outrem. Semelhança em demasia alastrava-se pelo espaço hospitaleiro no bar em que eu estava. O incômodo de saber as horas fora sepultado. O que importava apenas chamava-se, liberdade. Perceber o pouco espaço do recinto, a cada empurrão, deixava mais clara ainda essa liberdade de não temer o próximo. Os meios midiáticos alastram dia a dia essa possibilidade de intimidar-se. Mas, ali não. Conseguir captar essa energia é desafio crescente e de repente uma voz confusa, entrou em cena: Moço, estou longe do Largo da Ordem? Cognome abundante na mente dessa gente de sorriso pendente, pois o certo é dizer Largo Coronel Enéas. 

Nesse instante, acordei do delírio prazeroso e atordoado parei a magrela e respondi: Não, está bem próxima. Pode me acompanhar, até lá? Ela complementou: Assim me sentirei mais segura. Apossado novamente pelo silêncio da noite, a voz da moça desorientada não trouxe firmeza. Feito raio em céu pedrento, respondi rapidamente, não e dali sai em disparada, conectado na magrela.  É estranho como opera o instinto nessas situações e de repente avistava o portão de casa. Desconectei da magrela. Abri a porta de casa e estranhamente o sociável soprou seu frenesi, novamente, em bizarro discurso:

“Ímpar poderia ser o desfecho daquele episódio insólito! Pois, a andança em terras estrangeiras, sempre desagrada os desavisados...”.

JRA (o poeta da verdade).

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