domingo, 19 de setembro de 2010

CHUVA FINA


Esta crônica faz parte da coleção "dando uma garibada"

A chuva fina chegou. Seja bem-vinda! Era esperada ansiosamente nas pastagens secas e, mesmo de tempos em tempos sua presença perene agrada os amantes de uma estiagem prolongada quando lembram a pluviosidade em demasia de outrora. Porém, a condição atual determina que esta fonte primordial para a vida esteja cada vez mais se tornando escassa devido à contaminação de rios e riachos, e, diante da necessidade de suprir as relíquias de cada corpo, esta chuva fina presente “hoje” é muito contemplada. No entanto, por volta do século XVIII um estudioso espantou sua sociedade com uma teoria, onde a escassez dos alimentos seria o resultado do aumento desordenado do crescimento populacional. Isto na época representou um desdém pelas considerações filosóficas e sociais, uma vez que à economia estava centrada no campo. De lá, para cá, os tempos evoluíram e a teoria daquela época hoje reflete uma condição alarmante e emergente “a falta d’água”. Certamente, este fator interfere também na produção de alimentos e uma série de processos produtivos em larga escala nos tempos atuais e em presença desta situação, surgiu um questionamento:

Como a sociedade permitiu isto? Bom, fazendo um sucinto resgate sobre a evolução das classes sociais, percebe-se que o fator culminante e colaborativo se chama “concentração de renda”. Quem detém o domínio do montante, não repassa e tampouco se preocupa com o básico, com o essencial e mais ainda, com a preservação das fontes de riquezas naturais primordiais para a vida do ser humano. É sempre visado o famigerado ganho na especulação do mercado financeiro, intensificando o predomínio do pecado capital “avareza” com o intento almejado apenas para acumular patrimônio, e nada mais. O resultado deste processo traz uma “chuva híbrida” composta por diversos agentes químicos que as indústrias – da tão cobiçada revolução industrial – repassam a atmosfera, e se somam as gotículas que caem na terra dura e seca que ao mesmo tempo em que agradam as plantas do terreno, afetam silenciosamente o desenvolvimento das mesmas. O resultado desta mutação é avistado a olho nu nas folhas das árvores que não são mais verdes. É um tom novo, opaco e sem graça que esconde dia após dia o verde identidade. Longe deste contexto, observa-se também, o corre-corre dos transeuntes da vida urbana pelas calçadas em busca das marquises, para se abrigarem das gotas nocivas. Mas, isto não é observado com relevância. E, mesmo ante os noticiários da mídia eletrônica que aborda o tema, o que continua a chamar a devida atenção é o produto da tão necessária revolução industrial, a ditar que o mercado financeiro expõe com clareza as condições do longo prazo para ofertar o ganho, e cativar o cidadão que de camponês se tornou freguês da classe burguesa adaptada. O feudo moderno se tornou crédito e os suseranos capitalistas subjugam os vassalos consumistas, ofertando em troca a mais cobiçada condição humana “satisfação” para determinar o locupletamento de suas receitas. Mas, voltemos à chuva fina...

Sua constância pelo dia é uma bênção, pois mansamente cai nas folhas verdes – lembrando que já não são mais as mesmas – e no momento que atingem o solo duro e seco, chegam arrebatadoras e suaves para não danificar o substrato do ciclo vegetal. É uma piração! Sim, é uma alienação... E isto sai facilmente em palavras porque a abundância do elemento água reforça mais uma vez a presença da “satisfação”. Somos insatisfeitos por natureza e desfrutamos da iminente escassez da água como satisfeitos em banhos demorados, torneiras abertas, lavagens de roupas, enchimento de piscinas para o asseio do calor e não do corpo, e uma infinidade de contentamentos que a modernidade necessita dia após dia. Até lembrei-me de um trecho – não de chuva fina – mas, onde a chuva torrencial fazia sulcos na terra seca e dura, e freneticamente as crianças da época – inclusive eu – aproveitavam do momento para fabricar barreiras com lama acumulada. Era um desvairo que cessava com o berro da genitora, ou da responsável pelo zelo dos rebeldes inocentes, que, ao mirar as calças encharcadas e enlamaçadas, já alertava qual seria o castigo pelo ato.

Contudo, muito gratificantes sentiam-se por brincar e brincar, e, as imagens da nostálgica rua, hoje mudaram. O pavimento absorveu a lama de uma época e mesmo nos locais que esta tecnologia não chegou, a vasa também não é a mesma e no instante que a chuva torrencial cai, leva consigo – além das gotas nocivas – diversos entulhos como pacotes, latas e inúmeros materiais. E, se porventura algum rebelde inocente tentar fazer uma barreira para brincar, irá sentir o peso do ato – não pelo castigo de quem está a zelar, se tiver alguém a zelá-lo – com uma possível chaga que a água da vida trouxe através da poluição que a carcome hoje. Voltemos à chuva fina, novamente... Seja bem-vinda! E mesmo depois dos inúmeros processos que você sofre pela ação do homem impuro, você ainda é cidadela de “DEUS” a cair nas mais diversas partes desta terra que necessita de um ontem, um hoje e um amanhã...

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