segunda-feira, 13 de setembro de 2010

BOLHAS DE SABÃO


As atualizações de praxe e diárias dos programas existentes em meu computador são constantes. Aperto o botão on/off e lá vem a mensagem: nova versão disponível, aguardando atualização, e por fim noto que está na hora de trocar de equipamento, pois a memória já não é mais compatível com a velocidade das inovações. Então resolvo partir para outro tipo de atualização. Levanto bruscamente, saio da frente do PC e abro a gaveta, onde guardo algumas folhas destacadas do saudoso caderno universitário de dez matérias, e também, lápis e borracha que se encontram ao lado. Caneta nem pensar! Por vezes a rabisqueira se apossa de todo o espaço da folha branca, no momento da releitura, e, para evitar o amontoado de bolas de papel amassado envolta, a caneta torna-se item ocioso nesta atualização. Bom, vamos lá. Tento transcrever algo e de repente percebo o esquecimento da caligrafia manual utilizada nos tempos do primário. Ah, vai à letra de forma, mesmo! Direciono o hábito peculiar, contudo, o ritmo é precário. Em questão de segundos, abandono esta nova atualização e retorno a sentar em frente ao PC.


Que alívio, manifesto o socorro ao contemplar o teclado, mas antes de sentar e teclar preparo uma caneca bem cheia de café com leite. Uma parte dos ingredientes está na geladeira, ou seja, o leite longa vida desprovido das propriedades inerentes e embalado na caixa apropriada é retirado e após seguir como primeiro membro do líquido costumeiro abre-se a garrafa térmica e despejo o café que há dentro dela. Este liquido já foi considerado ouro negro e muito respeitado como commodity mais rentável de épocas nostálgicas. Todavia, o processo de torrefação mexeu consideravelmente no fruto da café-robusta. Está gelado! Exclamo impacientemente e agitado, pois a cachola necessita do composto imediatamente e ao acionar o forno micro-ondas, o mesmo não liga para esquentar rapidamente o líquido atualizado. O jeito é apelar pro fogão e enquanto isto retorno ao PC. Ainda não atualizou? Observo que estou cercado de condições e como o fogão não dispõe do mesmo mecanismo que o micro-ondas, ouvem-se barulhos que há tempos não notava. Lá estava todo o preparo do café matinal, espalhado e quente por toda a mesa esmaltada, feito emplastro de São Fiacre e, continuo enfermo e sedento de um gole diminuto que seja desta atualização diária no organismo. Careço de um taumaturgo para a ocasião. Será? Descontroles operam na mente.


Abro a porta para retirar-se do ambiente malogrado. Os ares se resplandecem. É neste exato momento que percebo o mamoeiro tombado. A planta não é típica da região sul, mas, desenvolveu-se muito bem na terra adubada e fértil do terreno e estranhamente os frutos avantajados não chegam a madurar. Certamente ele anda desatualizado! Tento desterrar este sarcasmo errante, e diante da figura indelével, estremeço ao observar que a causa da queda é devida a uma das ramificações da planta, repleta de frutos tenros, porém, verdes, encompridar-se em demasia. Até parece algo emergente e sucinto de uma forma inexplorada de mutações ainda prováveis pela frente. O galho caído dominou o canteiro de cebolinha verde e ao levantar este fragmento da planta abatida pelo vento, avistei um único talo ileso. Olha só! A expressão de espanto não era pelo fato da sorte imprevista diante do acontecido, mas sim por causa de uma atualização imediata refeita em minha mente e muito encantadora dos teus de piá. Rapidamente retornei para dentro de casa. Esqueci a necessidade do gole de café com leite, das atualizações do PC e tampouco do fogão imundo que deixei. Lancei-me a abrir o armário e procurar uma caneca. Que droga, só copo descartável? Utilizei o que tinha e após o gotejo do detergente de louça, abri a torneira.


Pronto! E com o talo em mãos, mergulhei e comecei a soprar, mas nada de sair bolhas. O que está errado? Deveria sair, está tudo certo, não falta nada! Estabanado pela correria desisti e resolvi folhear uma revista deixada ao lado da lixeira. A capa pouco sugestiva para a ocasião dizia o seguinte: Nunca fomos tão felizes... Só pode ser alucinação, repliquei e até achei mais apropriado seguir os passos e enviar de uma vez por todas a revista para a lixeira. Foi então que algo insurgiu e o manuseio acelerado das mãos prosperava com a visão antenada a ler, ler e ler o conteúdo freneticamente. Ao término da leitura a testa franziu e as têmporas em estado de discordância elevavam-se para cima e para baixo. Consumismo indisciplinado, nada mais. Fechei a dita revista após ponderar, e ao retornar ao ponto de origem argumentei:


Será uma questão de tempo para acordar deste sonho irreal e entrar de frente e abertamente na condição de falta de esforços direcionados ao que é essencial :


“atualizar e suprir a base, sempre”...


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