sábado, 15 de maio de 2010

0.22.13


Cochilo vespertino! Levantar sonolento... e após uma ducha onde a chave que controla a temperatura do chuveiro muda constantemente, o ritmo segue. Os quase 10 km que separam o arranque da partida até a frenagem da chegada são lembrados sempre pelo questionamento dos curiosos de plantão.

– Você mora aonde? A resposta segue a mencionar o bairro e quando determino a distância da pedalada o assombro forma mais uma não conformidade impregnada na mente a desistir.

– Muito longe!

– Eu não viria de tão longe de bicicleta.

Fazer a mudança na mente preguiçosa não há como. Fazer uma mudança no habito sedentário, pior ainda; e assim sigo a marcar as pedaladas. Neste momento é necessário recuar um pouco no curso dos fatos. A época exata não recordo, mas o fim de tarde de sol quente está ativo na lembrança , onde uma magra (bicicleta) que montei com entusiasmo e próximo de alcançar o ultimo tópico para incrementar a belezura , furtaram em questão de minutos.

Naquele instante todo o prazer dedicado a fazer o que gosta ficou inerte na consternação do imprevisível que fala a todo o momento.

– Espero nunca passar por isto! Mas passei. Passei e volto um pouco mais no tempo a determinar uma marca que estava prestes a ser batida senão fosse o aleatório mostrar que no mundo dos homens tudo é provável ante o material predominar “a guerra da posse”.

Era um pós plantão de um sábado conturbado e o desafio estava lançado na mente determinada a superar uma marca apenas propicia para mim. Mudei o trajeto por um mês do batente ao lar e pouco a pouco sentia que a superação estava prestes a surgir! Baixando da casa dos 20 minutos a distancia de retorno. Através dos pedais movidos com orgulho a cada suor que caía do rosto sonolento de uma noite de trabalho, e também a marca na camisa branca do descarrego a lavar o corpo cheio de energia negativa, sentia claramente a probabilidade da vitoria reinar.

Passei o cartão magnético no relógio digital do compromisso para iniciar a busca do lar a descansar, e lentamente se aproximava do semáforo da remota parada de ônibus do saudoso “expresso”, que desembarcava em frente ao vestiário do ambiente da dor, os inúmeros colegas do ganha-pão.

Ali mesmo na Avenida Affonso Camargo zerava o ciclo-computador no aguardo do sinal verde de largada. O caminho livre e a brisa suave da manhã de domingo contribuía ainda mais a sobrepujar o tempo. A distancia é sabida e mapeada com precisão a cada trecho a detalhar a superação. Desci a via urbana de largada a quase 50 km/h e próximo a linha férrea passei sem notar os trilhos antes do viaduto Capanema.

Naquele instante na reta da Rodoferroviária notei o hodômetro a marcar a constante dos 35 km/h e o contentamento dava impulso e fôlego ao primeiro trecho programado e conquistado. Fiz a curva à direita mudando de via e já na Rua Mariano Torres atenuava o tempo em segundos até chegar novamente aos 35 km/h da reta cheia de semáforos. Os cinco semáforos sincronizam o tempo exato de o verde a seguir e o desafio seria chegar até a Rua Quinze de novembro sem empacar.

Incrível! Amarelou no momento que superava a Avenida Marechal Deodoro e avistando o Circulo Militar do PR diminui a cadência, pois o sinal estava vermelho. Uma curva em “L” à esquerda e outra à direita e mais dois semáforos eram superados a contemplar o passeio publico na visão já embaçada do óculos de proteção do ciclista precavido . Precavido nem tanto, pois detesto capacete e quando notei a Casa do Estudante Universitário também á esquerda e o Colégio Estadual do PR do outro lado, o sinaleiro deste trecho estava vermelho.

Cruzei a canaleta do ônibus biarticulado com uma visão ampla a notar o movimento da Avenida João Gualberto deserta e então furei o sinal vermelho. Estava próximo da Avenida Candido de Abreu – Centro Cívico – e o rosto encharcado de suor e a face feliz. Não queria notar o tempo percorrido, mas um capricho de momento fez com que o botão do ciclo-computador fosse pressionado e o marcador do homem moderno indicava algo entorno de nove minutos.

Que espanto ante a superação da pedalada na contramão da Avenida Candido de Abreu no pequeno trecho da rotatória da prefeitura, e ao ver a ciclovia do poluído rio Belém próxima, e a obra do Palácio das Araucárias levantadas após um longo período de abandono, a mente exausta dizia na voz de dentro.

– Superamos metade do percurso! Novamente a curva em “L” à esquerda e a Rua Mateus Leme a adotar por um longo trecho. Naquele instante a fraqueza se apossava e o sono trazia uma cefaléia a derivar as batidas do coração para a cachola como um tic-tac de uma bomba prestes a implodir.

– Será que tem uma bomba relógio dentro de mim? O devaneio começava a tomar conta e mentalizar a queda ao chão do corpo fragilizado pelo cansaço. Não queria lembrar-se da noite de afazeres no ambiente da dor, mas meu corpo sim e cobrava a todo o momento isto de mim. Próximo a churrascaria do Ervin à esquerda o drama da chegada e mais ainda a galgar; “as subidas” do bairro Bom Retiro.

Formicação nos braços e pernas seguido de uma tremedeira por todo o corpo e a boca sedenta a pedir água. Um apagão diminuto da carcaça do ser rompante e a luz da manhã sumiu. Sentia que ainda pedalava. Mas para onde? O corpo estava em estado automático, mas meu espírito não. Aquela energia só podia ser minha alma a mover os pedais da minha magra. De repente uma buzinada estridente.

– Ta dormindo?

No grito de alerta a clareza do dia se restabeleceu e o penúltimo semáforo fora superado sem ao menos notar que não me permitia avançar. O motorista colaborou de maneira adversa, pois nem todos que vejo chegarem ao ambiente da dor partilham da mesma sorte. Duas curvas neste instante e a ultima subida, a do Auto Posto Calibra. Próximo do posto e da arvore centenária do bairro o corpo estava vencido. O que determinava a minha pedalada naquele instante era o ciclo-computador e a 17 km/h mantinha a doidice da conquista.

Ao passar pelo posto lembrei-me da pedalada até a serra da graciosa e a derrota de cada trecho como uma vitoria a mover um passo a mais. Talvez esta alucinação fosse à energia a exaurir-se cada vez mais do corpo acabado! Mas não era. Interrogar a mente enfastiada e o corpo extremamente extenuado naquela altura dos acontecimentos era pura sacanagem, e logo na Avenida Hugo Simas observava a aproximação do ultimo sinaleiro. Era só transpor o semáforo e virar a esquerda para os últimos metros serem contemplados na chegada ao lar. Teimei em apertar o botão do ciclo-computador na busca de notar o tempo percorrido.

Mas os dedos não obedeciam mais e tinha que me contentar, e resguardar forças para ultima subida, “a de casa”. Mais um ato impensado e na descida que já tinha presenciado a imprudência de um motorista a matar uma criança, não obedeci à placa de PARE e como roleta-russa segui a girar o tambor do armamento do vacilo, a embalar o composto formado da magra e o ciclista a superar a ultima elevação. Um dizer de um chegado colaborou a burlar o erro cometido.

– O cara necessita de muita sorte quando busca algo!

E neste momento o portão de casa a minha mão amortecida tocava. Desconectei da magra e com a mão esquerda pressionei o botão do hodômetro. Exatos 0.21.23, ou seja, vinte e um minutos e vinte e três segundos era o tempo percorrido da distancia de quase 10 km do batente ao lar. Imensamente exausto quase tombei, mas a alegria era notada nas lagrimas de alegria que se apossavam do rosto a somarem se com o suor da superação.

Notei que o retorno no tempo foi em demasia e o hoje estava presente. Este foi o tempo cravado de instante e a marca do furto da antiga magrela determinava que isto não fosse mais possível superar e romper a barreira dos vinte minutos. Muitas águas do rio da vida passaram a lamentar e a acreditar; e ante o presente ganho da nova magra a pedalar e transformar os objetivos me contentava tão somente a condução do transporte necessário ao corpo a seguir firme o habitual trajeto do compromisso com o ganha-pão através da prazerosa pedalada.

Mudei aos poucos a nova magra e notava que a pegada era superior. Uma vontade ainda predominava silenciosa a buscar a marca, mas os dias dos pós plantões não colaboravam e o preparo físico menos ainda; então hoje decidi arriscar. O trajeto estava vivo na mente e o corpo não queria aceitar a provocação. Ao ver o primeiro sinaleiro de largada na Avenida Affonso Camargo o passado vivo voltou intensamente. Segui conforme acima citado apenas os trechos, pois a força de vontade foi primordial para a nova investida.

Ao chegar ao portão de casa apertava pela primeira vez o ciclo-computador e observava o tempo com alegria. 0.22.13, ou seja, vinte e dois minutos e treze segundos. Um pouco acima do anterior, mas comemorado intensamente. Antes de deitar e buscar o aconchego do lar após outro plantão de sábado conturbado no batente refleti do passado ao presente.

– A força que regia o meu corpo naquele instante era “Acreditar e Confiar “e hoje é “Força de vontade e Esperança”. Abri o portão e a trajetória dos segundos passou, mas marcou como imagem no pensamento...

Obs. – furtaram novamente à nova “magra” e hoje deixo em palavras a alegria do ciclista que incorpora o acessório necessário do bel-prazer, quando o assunto é “pedalar”...

Um comentário:

  1. 10 Km em 21, 22 min ô loco meu !!!??!!
    O texto mostra mesmo a sua paixão por esse esporte ao narrar cada obstáculo superado junto com os pensamentos/emoções do ciclista..o leitor sobe ladeiras, atravessa sinais de PARE, vermelhos junto com o doidão!Hahahahahhaha Muito legal este texto!

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