sexta-feira, 23 de outubro de 2009

OS OLHOS FECHAM ...



Certa canção segue um trecho assim, ”feche os olhos e sinta um beijinho agora de alguém que não vive sem você”.


Mas o Déjà vu rasgante marcou meus olhos abertos a cada passo na terra morta a olhar o pequeno caixão em meus braços, e dar um beijo de despedida na face do meu filho querido, e derramar lágrima atrás de lágrima sobre seu corpo sem vida. A cor branca da moldura de madeira guarda o inocente que agora descansa em paz, no jazigo apenas em lembrança, pois o nome não foi possível colocar, devido à lei dos homens.


É este empirismo que me mata pouco a pouco. Nietzsche diz que fortalece. “Eu” digo que mata, pois os olhos continuam fechados a aceitar decisões de carrascos com olhos bem abertos. A trajetória dos fatos abaixo é muito dolorida, mas este é o dom herdado a muito custo, e como poeta e servo, sigo o inusitado. Sempre achei que a morte me persegue desde os tempos de infância, adolescência e agora como homem que trabalha no ambiente da dor (Pronto Socorro) a presenciar a violência urbana.


No local que achei ver vida – o hospital e maternidade referência para a ocasião – vi a morte em cada olho fechado. Achei que o descaso operava apenas com a violência, mas notei que lá também estava presente, a cada face e olhar das futuras mães sentadas a esperarem horas.As portas que abri, eram portas escuras, e quando fui em busca de claridade, uma verdade a mais se somava no meu ser. Mas na manhã de hoje ao abrir a porta do hospital e maternidade apontado para minha nova cria , abria inúmeras portas em vão. O residente plantonista com a face em lágrimas repassava a noticia inaceitável e após circular o corredor e ver estampado na parede um certificado assinado por autoridades máximas e um pôster de título “HUMANIZAÇÃO”, lia que aquele lugar era orgulho do projeto “mãe curitibana” devido aos baixos índices de mortalidade perinatal.


Meus olhos bem abertos a ler e seguir cada corredor com uma mulher inconformada ao meu lado, a esperar uma criança vir ao mundo e jamais poder abrir seus olhos, aguardava no ventre que inúmeras mãos tocaram , alegraram e desejaram surgir e abrir os olhos para vida. Desaprovar uma instituição inteira pelo ato, ou pior ainda, pela determinação de um único homem a decidir por uma vida, é como pelejar contra Ogue, rei de Basã (Deuteronômio 3:1). Estatísticas e números comandam o mundo moderno e eu com meus 38 anos - a esposa também - vivenciam um anjo de 38 semanas caminhar por outras terras.


Nesta terra números não são necessários; o tempo inexiste e a luz que lá está este carrasco jamais irá alcançar.Hoje a revolta está bem longe de mim , pois sigo meu salmo 38 a direcionar meus passos e de toda minha família lendo um trecho assim “os que dão mal pelo bem são meus adversários, porquanto eu sigo o que é bom. Não me desampares , Senhor, meu Deus, não te alongues de mim (salmo 38:20,21). A cada abertura do livro sagrado, minhas mãos contemplam os caminhos por onde sei que meu natimorto sofreu para trazer a verdade do momento presente, e mais um trecho segue assim , “O Deus que fez o mundo e todas as coisas que nele há este, sendo senhor do céu e da terra , não habita em templos feitos por mãos de homens. (Actos 17:24)” , e o carrasco continua a caminhar por esta edificação a ceifar e ordenar .


O grego Hipocrates é traduzido assim a determinar o juramento pela vida “Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra.Nunca me servirei da profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu, para sempre, a minha vida e a minha arte, com boa reputação entre os homens. Se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o contrário”, mas a tudo isto que as palavras determinam os olhos da iniqüidade estão presentes a macular os de bem desta classe do campo da medicina.


Não posso me calar, fechar meus olhos e mais ainda aceitar o infortúnio da minha parte, pois saberei que o carrasco solto seguirá a ordenar, ditar e determinar uma perda grandiosa , dolorosa e abissal quando OS OLHOS FECHAM...



Post scriptum – não há como continuar isto em palavras e mesmo que minha peleja não seja vitoriosa neste mundo , saberei “eu” o julgamento deste quando chegar o seu momento... "para entendimento melhor dos leitores, dia 18/10 deste ano comemorou se dia do "médico" , mais precisamente um domingo, em que minha esposa fez o chá de fraldas. Na segunda-feira dia 19/10 , fora ela toda feliz da vida para consultar e após alguns exames , constatou-se perda de líquido significativa , e mesmo após o repasse do residente de plantão , ao médico chefe, a decisão foi dispensar minha esposa para o lar... a partir disto o drama seguiu e na terça-feira dia 20/10 o drama seguiu , a dispensarem ela novamente. É dificil de acreditar nisto , uma vez que o hospital era referência , devido a condição e o risco da gravidez... Na quarta-feira dia 21/10 depois de esperar um longo processo de atendimento , foi constatado que o coração da criança não batia mais e depois do parto do "NATIMORTO" a pessoa que estava presente naquele momento , viu o cordão umbilical enrolado no pescoço ... As lágrimas correm agora e lembrar tudo isto para mim é um pesadelo sem fim, por isso construí o texto acima da forma que segue , mas resolvi colocar este acrescento para ficar mais claro"...



“AINDA ACREDITO NOS HOMENS DE BEM, DESTA TERRA INSANA”. DEUS traga a paz , a bonança e a justiça hoje e sempre ...

JRA (o poeta da verdade).




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