segunda-feira, 26 de outubro de 2009

LIVRE E SIMPLES




















O sabiá voltou, e a antiga ninhada sempre esteve ali, presente no limoeiro. O retorno da ave se dá, devido ao fato da cria futura ativar forte o sensor interno, que indica quando chega à época de procriar. Circundou por diversas vezes e mesmo notando a presença de pessoas a catarem limões, não se intimidou e novamente recuperou o ninho erguido com entusiasmo.


Por uma longa data fungos, umidade e demais agentes se apossaram da ninhada. Mas o hoje falou mais forte e na chuva que chegou a determinar o último dia de inverno, é importante perceber que a primavera terá muito trabalho pela frente, ainda mais se tratando de renovação...


Ser livre é assim! Surgir, ficar e ir... E por ser tão simples a mente não aceita de maneira alguma, ao ponto de questionar, não apenas uma vez, mas sim “n” vezes. É o mesmo sabiá de outrora? Não poderia ter escolhido outro local? O limoeiro não está velho demais para dar frutos? E por ser um ser decrépito, não seria mais sensato, escolher um arvoredo mais apropriado? Réplicas e mais réplicas e o sabiá segue firme a caminhada.


O dia a dia do homem é um sofrimento intenso. Pensa demais, age demais e perde demais. Bom, o jeito é dar uma trégua ao ilustre bípede e rever a ninhada do homem moderno. Do passado ao presente gerações chegam e antes que possam tomar decisões, o pensamento dos genitores anda agitado a buscar o futuro promissor para cria. Constrói-se uma morada que nunca está apropriada e mudanças surgem a todo o momento. Então chega o primeiro obstáculo, satisfação. Para o homem, o kaos se estabelece quando não há satisfação e por ser um insatisfeito nato, o problema acabou de surgir e se chama “espaço”. Tenta de todas as formas, erguer uma cidadela para a nova semente e quando se dá conta , o melhor que há na natureza humana – ser criança - já passou e nesta ocasião se aproxima as decisões.


De cabelos em pé, se ainda tiver algum, percebe que o indivíduo criança começa a entrar na dança do moderno e como deu demais e tirou de menos, paga o preço da dívida adquirida pelo conforto, escutando perplexo, mas presente, os inúmeros desejos daquele que aprendeu a ficar alerta com o tempo e a transformação.


Agora é chegado o ápice da correria e como o tempo não poupa ninguém, ir é algo sem freio, por mais que a vontade reine exclusiva de uma única mente a pedir sem muita perspectiva. Neste trecho da existência a mutação está completa e o primeiro passo da revoada do ser imperfeito e pensante, é uma incógnita ante o trabalho exigido para se fazer existir, nas novas fronteiras que virão...


Talvez aqui esteja intrinsecamente escondida uma parte do individuo a explorar, mas enquanto isto não acontece, é mais recomendável seguir o trecho abaixo para refletir, e esperar o novo sabiá surgir, ficar e ir...


JRA (o poeta da verdade)



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“... Num mundo utilitário não existe coisa alguma permanente.”...

“... Marx se perguntava sobre outro tipo de trabalho que daria prazer e felicidade aos homens. Trabalho companheiro das criações dos artistas e do prazer não utilitário do brinquedo e do jogo... Trabalho expressão da liberdade, atividade espiritual criadora, construtor de um mundo em harmonia com a intenção... Mas são estes horizontes utópicos que aguçam os olhos para que eles percebam os absurdos do topo, o lugar que habitamos. E, ao contemplar o trabalho, o que ele descobriu foi alienação do princípio ao fim...” (Rubem Alves).


Intrinsecamente - Essencial; inseparável; próprio e inerente. É quando uma pessoa pesquisa alguma coisa, ou faz algo próprio, inseparável.

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