segunda-feira, 12 de julho de 2010

O RASGO


Da coleção, "dando uma garibada" trago ao topo esta crônica. Boa leitura a todos...


O poder da criação espalha uma fonte singular de inspiração em cada folha branca. São os rascunhos da alma sublime! Que escreve copiosamente, alimentada pelo espírito rompante do ser surrealista, o tal, artista peregrino da escrita. Portanto, poetar é essência e desejo de liberação da energia intrínseca, que detalha os suspiros mais secretos dessa etapa.


Mas hoje foi diferente! Bem, diferente. O cansaço costumeiro de cada trecho percorrido pelos corredores do ambiente da dor (pronto socorro) deflagra a impotência e o inconformismo em cada semblante indulgente. Pessoas aflitas a procura da solução imediata! Quando isto ocorre, raciocínio algum, opera e, desta maneira minha visão testemunha a busca de respostas muitas vezes incompreensíveis, aos olhos, porém claras e marcantes, no coração.


Toda essa carga ruim, apenas alimenta a indignação impotente, e nada mais. Proponho o mote a partir disso e o comando que chega a mente dá segmento refrescante provisoriamente, escrevinhando palavras soltas, na minha folha branca. Penso, então: Preciso regressar ao aconchego do lar rapidamente, e serenar meu espírito. Contudo, o indicador desta ocasião, apenas emite o som alto e claro, em dois instantes: Chegada pouco animadora e saída capital. É o cartão magnético deslizando na parte indicada no relógio digital de ponto do compromisso com o ganha-pão. Daí, sim! Falo, alegremente:


– Hoje estou aliviado, por enquanto... [risos]


Digo isto pela relevância acondicionada apenas no fato de não afetar o lar querido, com a carga adquirida e, deixo relatado que, apesar do peso do ambiente, há pessoas auxiliando sempre para seguir firme no batente.


São amigos preciosos identificados pelas mesmas circunstâncias! Porém, com outros personagens, o contexto indica a mesma dificuldade enfrentada. A madrugada trouxe essa história viva do passado, na fala presente do amigo. Notei a imensidão dos mais variados ambientes que cada indivíduo tem que superar, até se desligar dos afazeres e chegar ao lar.


Homem de farda, olhar cansado e fala mansa, particularizou seu drama de tal forma que, acordou a necessidade de rever o comodismo e a inconformidade com os fatos. Num certo trecho delineou os primeiros passos no ofício cabeludo da segurança pública. E, pior ainda! No cativeiro dos rebeldes qualificados pela sociedade, através de atos de revelia cometidos contra os bons costumes, determinando a clausura por longa data na PCE (Penitenciária Central do Estado).


Contou em detalhes minuciosos a cena na ala do manicômio judiciário, do sujeito perdido no tempo e desprovido totalmente de valores, esboçando atitudes intrigantes. Era horário de refeição, e após o detento pegar sua bandeja alimentar, direcionou-se ao vaso sanitário e catou os dejetos que ali estavam. Abocanhou indiferente, como se fosse um bolinho de carne ou qualquer outra iguaria, que complementa o prato de cada dia. Decerto, tratava-se de uma coprofagia compulsiva e delirante do ser atemporal!


Os freqüentadores assíduos deste ambiente enfadonho de clausura do homem, pelo homem, não se assustam mais. Entretanto, eu fiquei muito espantado, entendendo perfeitamente o recado repassado, e perante os fatos é importante refletir os momentos de rezingar nossos dramas, porque o de outrem é equivalente, ou até mesmo superior. O colega despediu-se de todos agradecendo pela ocasião. Sabia que ainda faltava muito para concluir seu compromisso com o batente, e eu alucinado a espera do horário crucial para fechar o ponto.


Enfim, os raios de sol na face indicavam a matutina daquela manhã de primavera. Era os primeiros movimentos do horário de verão e ao chegar a casa, notei que meu guri descansava sossegado. Seu compromisso com os estudos começa na vespertina. Este é o trilho fundamental em busca do saber, ou seja, os primeiros passos de um homem “a Escola”. Levo a cria até a porta do estabelecimento estudantil por viver o dia a dia da violência, e após pedir a benção, o meu infante segue por essas paragens longe do lar.


– Fica com Deus meu filho, e bons estudos!


Dizeres valiosos nos dias atuais e ao retornar descansei um pouco mais, pois o corpo pedia. Antes disso liguei o PC e verifiquei como anda o processo da minha escrita espalhada pelo virtual. Acessei meu blog e o olhar de relance notou o enunciado de um blog que há tempos não lia. Era do professor de português do meu guri. Fiz uma releitura do texto postado lá com o título"Amargo".


A trajetória da inspiração do autor trazia ao leitor o drama de um personagem, que rejeitava a comida, só de olhar diretamente ao prato feito, sem degustar. Até parecia o “jejuador”, mas a fome prevaleceu e comeu ante a necessidade. O alarme do celular fora acionado e eu deveria descansar, pois mais uma noite de trabalho me aguardava. Desliguei o PC e assim deitei novamente por mais alguns instantes.


O tempo se aproximava e buscar o menino na escola era necessário. Novamente o celular acionou o alarme e no telefone sem fio, o painel mostrava algumas ligações não atendidas e dentre elas, o número da escola apareceu. Retornei a ligação e a secretária informou que a pedagoga aguardava-me.


Cheguei apressado ao recinto e o professor ali. Meu moleque cabisbaixo ao lado e eu no aguardo do relato do ato cometido. O docente detalhou a falta de atenção e pior ainda; o rasgo de inúmeras folhas brancas e preciosas a esmo, destacadas do caderno precioso, que colhe o alimento necessário para a fome do saber.


Lembrei por diminuta circunstancia do texto de título “Amargo” e então engolia a seco uma refeição de difícil degustação. Os olhos discretamente enchiam-se a derramar lágrimas de aborrecimento. As folhas uma a uma destacadas e jogadas como prisioneiros sem possibilidades de sociabilidade! Minha mente pirou... Momento delicado do professor, somado a superação do peso duma sala de aula cheia de crianças rebeldes e sem aplicação.


Mais uma lição da dificuldade enfrentada por cada indivíduo, chegava clara na minha mente, mas o rasgo não aceitava. Não tinha como engolir esta refeição! A mazela marcou forte em meu peito, como mácula nos meus costumes herdados com tanto empenho no trato com o material escolar, e pior ainda, como nódoa em flor afetada pelo frio.


As possibilidades daquelas folhas rasgadas eram claras para mim, em textos cheios de encanto, mas o destino foi o lixo. Senti em meu peito, a ferramenta cortante que opera no tronco da árvore sacrificada, para alimentar com folhas brancas, os manuscritos vindouros. Mas o ato cometido, expressava rebeldia. O conflito da mente inquietante tracejava pensamentos tenebrosos, se a minha atitude fosse cômoda. Sai cabisbaixo, inconformado. Chegamos a casa, então pedi ao meu miúdo para detalhar a ocasião, nas folhas rasgadas que coletei do lixo, e nada. Empacou feito mula na lama dizendo:


– Não irei fazer! Então retruquei:


– No ato de rasgar a preciosa folha você fez, mas agora nada sai a colaborar com o arrependimento!


Não forcei a situação, entretanto sentei e digitei esse texto que o amigo leitor acompanha. A cada palavra acrescentada repassei novamente e calmamente, trazendo uma reflexão sobre nossos atos, ao filho querido para ficar em apontamento. E, se sentados à mesa as folhas rasgadas recebiam a escrita de um ato cometido pelo infante, que pouco a pouco busca a fome do saber. Todavia, sei eu que em outros ares o “amargo” dos acéfalos espalha-se cada vez mais, perdendo o precioso tempo de “APRENDER” com o dito sentencioso: "No culto dos grandes homens não pode entrar a adulação.” (Rui Barbosa).


No término da última linha escrita, abracei fortemente meu guri. Ele se retirou para o seu quarto e enquanto organizava as folhas li um trecho magnífico... [...] Pai, desculpe por hoje, eu te amo, assinado seu filho [...] Que felicidade! Contemplei com alegria. Contudo, a luta árdua prossegue em busca de superação das situações imprevistas, que chegam de diversas partes, a todo o momento....


4 comentários:

  1. não adule. tente entender... vc vai achar a resposta, eu sei!
    beijos

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  2. Oi, estive aqui... para desejar uma linda semana viu!
    Está se saindo cada dia mais brilhantes em seus contos parabéns, esse vc nos prende do começo ao fim na historia.BEIJOS
    TERESA CORDIOLI

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  3. Olá meu amigo querido! Estou aqui...nossos filhos teem a capacidade de surpreender-nos tanto nas "artes" da rebeldia, como na essência, aquela, que vc plantou tão bem, que sei...talvez ele tenha rasgado o seu momento...folhas em branco..nada a acrescentar, e isso pode incomodar...um abraço Poeta...e Deus continue a te inspirar belas palavras de cunho tão social e a encaminhar da melhor forma possível seu infante amado, tem bons princípios e mto amor da família...Mângela.

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  4. Boa noite José, Caro Poeta e Amigo. Esta é a missão mais sublime, dividir o pão com todos, que cá se resume as lições que vão surgindo, ainda que inesperadas. E você apresentou com maestria de um grande mestre.Um grande abraço!

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