sábado, 11 de abril de 2009

EM CIMA DO MURO



Acordei cansado! Também, pudera! Um trecho de mais de 100 km de pedalada do dia anterior compreendidos num espaço de tempo de 12 horas, ou seja, o retorno matutino ao lar ante o pós-plantão de afazeres e o vespertino que iniciou a busca do ambiente precioso, onde a pesca ao lambari é o ritual e o habitual deste ser.

O sol das 14hs nesta época de outono não é tão intenso, mas como vivo numa cidade de quatro estações diárias este sol mais parecia de verão a ficar em cima do muro a espiar os ciclistas com seu olhar potente a trazer a energia de luz irradiante a sugar o néctar do corpo anestesiado de sono e cansaço.

O combinado com o companheiro fiel de pedaladas – que dificilmente falha ao convite – estava assíduo como sempre e com o trajeto em mente, nos bandeamos para as paragens de Bateias. Este local é distrito, ou seja, uma subdivisão do município próspero de Campo Largo e com a chegada do barro preto do homem moderno, a anosa trilha empoeirada fica agora em memória, mas o percurso é algo de extremo valor a notar o mato típico da Estrada do Cerne.

Num certo trecho o pneu sentia a lama moderna e abrasiva aquecer, determinando um ganho maior de aderência. Já próximo do longo trecho de descida da Prefeitura de Campo Magro – cidade vizinha de Campo Largo – os dois companheiros pareciam estar em cima do muro a sincronizar as marchas para obter maior velocidade e sentir o vento passar velozmente na face molhada de suor.

Chegando ao destino o ciclo-computador acusava uma distancia percorrida de mais de 30 km e um tempo de chegada de uma hora e vinte e dois minutos. Alegres com a marca desconectaram-se cada qual de sua carruagem elegante de duas rodas movida a motor-humano para então arrumar os apetrechos da pescaria ao lambari. A lua cheia parecia marca d’água no céu azul vespertino a mostrar-se no oriente antes de reinar com sua plenitude na noite estrelada longe da poluição urbana.

A caminhada pelo rio era constante e o lambari nada de vir. A oferta dos frutos do rio estava adversa a fase da lua propicia para os artífices do lazer e mesmo colhendo poucos lambaris o local sempre representa a sua importância da busca para liberar e acalentar os expectadores ali presentes. A noite rapidamente se apossou a expulsar o sol para o ocidente e aquela lua que a pouco era notada como marca d’água na folha mágica do céu azul, mudará a irradiar como estrela guia da boca da noite.

Neste instante a precisão do homem da terra a dizer que a chuva estava prestes a cair era contemplada a perceber as gotas de a chuva fria no solo seco, pois nenhum equipamento maquinado pelo homem moderno é capaz de superar isto com tamanha eficiência. Lembrei do saudoso avô que tentou repassar isto nos ensinamentos herdados, mas para cada geração que chega a pressa aniquila e naquele instante em silencio fiquei a escutar.

– Esta chuva bandeia aqui apenas!

– Logo passará!

Questionar tão precioso instrumento é a constante dos educados, deixando de cultivar o poderoso observar. Passado o momento o retorno era necessário. Ao chegar ao lar notava encima toda a importância do momento. Tombei na cama exausto e feliz. Os freqüentes sonhos não cercaram o corpo, pois a energia da alma estava escassa e somente o espírito trafegava a colher imagens turvas e caminhos notados em cima de um muro de lagrimas e angustia.

Notava um suspiro e nada mais e de repente o dia se fez presente. Acordei cansado!Também, pudera! E a nostálgica marca do dia anterior agora seguia o curso certo ou incerto do “hoje”. Ao abrir a porta notei as folhas do pé de guiné abatidas e algumas secas. O vento parou e lembrei que era sexta feira maior. Feriado santo de extrema importância para os católicos praticantes e não praticantes e então fui à busca da bênção preciosa do padrinho e madrinha.

Passava do meio-dia e após pedir a bênção retornei ao lar a aguardar o levante a seguir até o compromisso com o batente no ambiente da dor. Nesta época da semana santa a violência é algo incompreensível e permanente infelizmente e antes mesmo de assumir o plantão a primeira marca da pressa era deflagrada com o acidente automobilístico que vitimou quatro pessoas. Não queria aceitar a constante dos fatos e por mais forças que tentasse reunir sabia que a incapacidade estava presente e mais um feriado violento estava por vir.

De repente a frenagem de uma viatura da policia estadual e a aparição de uma menina de aproximadamente dois anos inconsciente no colo do homem fardado. Em prantos pai e mãe aguardavam a abordagem para confeccionar a ficha de atendimento do anjo inocente e em disparada o militar adentrou com a criança no ambiente da dor. Os segundos preciosos iriam determinar o fica ou o vai. Uma gama de qualificados rodeou a cria preciosa e uma a uma as ambulâncias chegavam a entupir ainda mais a sala de politrauma.

– Quanto tempo esta criança está desacordada?Questionava o qualificado

– Mais de vinte minutos a contar do primeiro hospital que paramos e não tinham condição de assistência.

Repassou o militar com a voz ofegante e as lágrimas presentes. Um tempo abissal para a condição do corpo inerte sem auxilio poder superar o trauma e o oxigênio vital nada a ser inalado neste espaço compreendido do fica ou vai. Muitas investidas e nada. Infelizmente nada mais a fazer. O qualificado ao retornar para determinar a pior noticia que há no ambiente da dor escutava a trajetória dos fatos.

O pai a brincar inocentemente com a filha, deixava o anjo caminhar em cima do muro e por diminuto momento os passos se perderam e a menina caiu.O homem ao tentar acudir apoiou-se no muro construído precariamente que não suportou e desabou em cima da criança. A noite acabara naquele instante. Os dramas seguiram sua constante do feriado sempre violento e em cima do muro fiquei.

Minha mente lembrava-se do sonho turvo e do mal pressagio, mas sou apenas um homem e nada mais há notar o tempo passar, chegar e continuar a dizer:

– Sou o mistério, a fé e a vida; e por mais verdades que cheguem ao mundo dos homens ninguém nunca saberá quando estarei presente (...) a mostrar que não se vive em cima do muro e sim com os pés no chão a caminhar o que a ti pertences(...)...


Obs. - não mencionarei o conteúdo dos parêntesis , pois compete a ti descobrir e não mais ficar em cima do muro!


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